CÃES: POSSE RESPONSÁVEL
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Por Fábio Savastano


Toda posse acarreta um compromisso social.
Independente do que seja, bem material ou intelectual, coisa ou ser vivo, a posse sobre algo geralmente é regida por leis ou pelo senso comum onde o proprietário tem responsabilidade sobre tudo o que diz respeito à sua propriedade. Seu carro ou seu cão, uma arma ou um passarinho numa gaiola correspondem, de uma forma ou de outra, a um compromisso seu com a sociedade.
No caso de animais de estimação, particularmente de um cão, a nossa responsabilidade deve ser vista sempre sob duas óticas: A ação do animal sobre as pessoas e coisas próximas e a nossa ação e das pessoas próximas sobre o animal.
Sob o primeiro ponto de vista, vale lembrar que os cães são companheiros do Homem desde os primórdios da nossa espécie, principalmente de forma utilitária, para a caça e para a proteção mútua. Esse envolvimento se dá de forma natural e instintiva, mas nem sempre é idêntico de indivíduo para indivíduo. É bastante comum conhecermos pessoas perfeitamente lúcidas e conscientes que desenvolvem medo de cães. Às vezes, é um pavor descontrolado, às vezes um mal estar nem sempre disfarçável. E esse sentimento não depende da atitude do cão, nem do seu porte ou expressão.
Andar com seu cão pela rua, mesmo que seja um pequeno maltês, implica que você deve dar às pessoas circundantes garantias reais e psicológicas de segurança. Em vários lugares é obrigatório que um cão, em local público, esteja controlado por guia ou corrente. Há locais em que se exige o uso de focinheira, independentemente da índole ou do controle do animal.
Com lei ou sem ela, é importante lembrarmos que nem todos gostam do nosso cão como nós, nem todos sabem que ele é bonzinho ou que só faz o que mandamos. Deixar nosso cão se aproximar e cheirar uma pessoa deve sempre ser precedido da clássica pergunta: “Você se incomoda com cães?”
E não espere uma resposta clara, às vezes as pessoas se envergonham desse medo. Tente entender outras formas de expressão, um passo atrás, uma resposta evasiva, uma careta...Também não é só o medo que incomoda. Uma lambida na roupa, o risco de se sujar com marcas de patas, até mesmo com um prosaico xixi na roda do carro há quem se incomode muito. A melhor política, para quem leva seu cão para locais públicos, é deixar que as pessoas se aproximem, não o contrário.
Vizinhos, então, sempre devem ser considerados. Latidos constantes e intermináveis são indícios inequívocos de que seu cão e seus vizinhos não estão confortáveis.

Já sob a ótica das nossas ações sobre os animais de estimação, é fundamental atentarmos para o fato de que animais domésticos desenvolveram, ao longo de séculos de adaptações, uma interdependência muito grande com o Homem, a ponto de se tornarem totalmente vulneráveis às nossas ações.
Isso nos torna compromissados com sua sobrevivência, mesmo que esse compromisso seja herança dos nossos ancestrais, que através de ações racionais e voluntárias como a reprodução seletiva, promoveram essas adaptações. É surpreendente a quantidade de pessoas que não compreendem a sua responsabilidade sobre a vida, a saúde e o bem estar dos seus bichinhos.
Recentemente recebemos carta circular de uma entidade, a Associação Protetora dos Animais do DF, alertando aos criadores que é necessário escolher os compradores de seus produtos tanto quanto os mesmos escolhem seus lindos filhotes.
Sempre fizemos isso no canil Urumarana. O impulso consumista ou a paixão momentânea podem provocar grandes males. Algumas pessoas se esquecem, ou não levam em consideração, vários aspectos que, à luz da razão, parecem óbvios.
Primeiro, os animais crescem. Deixam de ser aquela coisinha miúda e cheia de pêlos para assumir sua real significância, ou seja, são seres vivos, nascidos para o convívio com os seres humanos e deles dependentes, que comem, brincam, lutam, adoecem, precisam exercitar-se, ter afeto, enfim, têm todas as necessidades da Vida.
Há também as incertezas inerentes a todo ser vivo. Ele não é tão sossegado como você pensava, come mais do que estava separado no seu orçamento, ficou doente e precisa de um tratamento caro...Ou simplesmente exige mais atenção do que você está em condições de dar? Quem poderia ter certeza dessas ocorrências?

Quando você ganha ou adquire um animal de estimação, deve ter em mente que ele é sua responsabilidade até o fim da vida, que pode ser bastante longa...É fundamental que o criador auxilie o comprador no entendimento do que está adquirindo e das situações futuras possíveis.
Pode ser difícil de se acreditar, mas pessoas capazes de pagar muitas centenas ou mesmo milhares de reais num cão, depois se vêem sem condições ou sem interesse de mantê-lo e, simplesmente, o abandonam nas ruas.
Certamente é delicioso comprar um cãozinho movido por uma paixão fulminante. Nós, criadores, vemos nos olhos dos compradores o brilho do envolvimento, temos prazer em fechar um negócio com alguém que demonstra uma enorme felicidade em pegar o filhote no colo, deixar-se lamber, beijar e esfregar o rosto naquele serzinho tão cativante.
Mas um criador consciente haverá de mostrar o cão adulto, saber como o pretendente a dono imagina tratar o seu animal, o que espera dele e alertá-lo sobre alguns problemas que podem surgir.
E deve acompanhar o cliente durante o tempo que for necessário, para garantir que as surpresas que não foram imaginadas durante a compra sejam superadas da melhor maneira tanto para o cão quanto para o dono. Em muitos canis, principalmente fora do Brasil, os compradores são visitados pelo vendedor, antes da decisão se o negócio será fechado ou não.
Como escrevemos no Manual do Proprietário, que cada comprador de um produto Urumarana recebe com seu filhote, “nunca, em qualquer hipótese, abandone seu cão. Ele nunca faria isso com você.”

Também não se pode deixar de falar sobre procriação. Embora nenhum veterinário ou pesquisador afirme que seja necessário para o bem estar do cão que ele procrie, muitas pessoas pensam que é um dever fazer o animal “cumprir seu papel natural e perpetuar sua carga genética”.
Essa consciência é uma peculiaridade humana e provavelmente não tira o sono de nenhum outro ser no planeta. Exceto em nós, o instinto procriador é cíclico e definido em períodos específicos, fora dos quais os animais, aparentemente, não se preocupam com o fato. Mas a proliferação de filhotes, soltos nas ruas, abandonados ou maltratados, isso sim é duradouro e cruel, além de perigoso para a saúde do próprio homem.

Se seu cão sempre fica muito interessado ou se sua cadela vai entrar no cio, lembre-se que a sua responsabilidade vai se multiplicar muito. Uma bóxer, por exemplo, pode parir até 12 filhotes de uma vez. E você não pode imaginar como é difícil vender ou doar um filhote de cão.
As entidades que se preocupam com a proliferação de animais abandonados fazem forte campanha pela esterilização de animais que não têm função reprodutiva. Pode parecer drástico e chocante, mas observe um cão abandonado com a mesma atenção que você dá a um lindo animal desfilando com o dono na hora da caminhada. É a descrição límpida da crueldade e da negligência.
A velhice também é um grave problema para cães pois, como acontece normalmente, o comportamento do animal muda, diminui a interatividade e as doenças aparecem com mais freqüência e com custos maiores. Muitas vezes o abandono não chega à expulsão do antigo lar, mas a dor pela indiferença e pela negação dos gestos de carinho são facilmente perceptíveis no olhar desses animais. Nesses momentos é que devemos mostrar o verdadeiro sentido das palavras fidelidade e lealdade do Homem para com aquele que ele chama de seu melhor amigo.

Há também que se falar sobre as responsabilidades de cuidados diários com os cães, aquilo que os criadores chamam de manejo.
Muitas pessoas temem adquirir um cão do porte do bóxer por achá-lo muito grande para viver num apartamento. O que eu costumo dizer é que a principal diferença entre um bóxer e um poodle num apartamento é o espaço que ele ocupa no sofá.
De fato, todo cão precisa descer, exercitar-se, trocar relações com os donos e outros seres da vizinhança, independente do porte. Na maioria dos canis, os animais passam grande parte do tempo em baias muito menores que um apartamento, mas mesmo assim são felizes e saudáveis. Isso porque são mantidos, embora que pela ação do Homem, em condições de alimentação, higiene e conforto melhores que as que encontrariam por conta própria. Um cão que recebe alimentação dentro de uma rotina adequada, exercita-se nos momentos ideais, descansa quando precisa, relaciona-se com os donos e com os demais cães e, quando necessário, fica isolado para obter qualquer atenção especial particularizada, é, sem dúvida, um cão feliz.
Manter um cão muito preso, ou, mesmo solto mas tratado como um mero alarme ou guarda noturno, com pouca interatividade, sem condições sanitárias ou sem atenção, é terrível e representa a vitória da prepotência do dono.
Por outro lado, há o papel inverso, quando o cão estabelece as regras da casa, fazendo as vezes de chefe do grupo. A hierarquia é fundamental na vida dos cães, por serem eles animais grupais, com uma estrutura social definida. Ou um cão lidera ou é liderado. E ele há de buscar essa relação, para seu próprio bem estar psicológico. Não é bom quando temos que mudar toda nossa rotina para atender às “necessidades” do nosso mascote, por não sabermos impor as regras. O cão não nos dará prazer, apenas trabalho. E essa é uma situação potencialmente perigosa de risco de abandono.
Sendo assim, aconselhamos que aqueles que queiram ter em casa um cão, ajam em duas etapas: Primeiro, pensem nas implicações, nas despesas e nas possibilidades, se é possível cumprir a sua parte “na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza”. Depois, procurem um criador responsável e encontrem aquele pequeno filhote pelo qual brote uma grande paixão.

Fábio Savastano é arquiteto e criador de bóxers desde 2000.

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